“Sem ponto final”
Olá a todos,terminei de ler um livro, que não posso deixar de o comentar aqui. Não o faço somente por ter sido escrito por alguém que cruzou a minha vida e não a deixou igual, mas também por ser uma obra que, na minha opinião, deveria ser lida por muita gente (talvez conseguisse abrir mentes). O livro chama-se “Sem ponto final” e a autora é Julieta Ferreira. Não me vou perder a contar a história, até porque nada se compara à leitura da mesma. Mas a verdade é que, quando algo nos diz tanto, temos uma tendência nata para o comentar. Ao ler o livro, não consegui deixar de fazer algumas comparações entre as personagens e as pessoas que me rodeiam, mulheres e homens. Por isso, talvez considere que não seja um livro “fácil” de ler para toda a gente. Nem sempre conseguimos assumir que o que estamos a ler é um espelho do que somos e, por vezes, tomar conciência dessa realidade pode ser bastante difícil de encarar. E é nisso que este livro é diferente. É um romance, sim, mas muito para além de uma história inventada na cabeça da autora, tem grandes verdades expostas naquelas linhas. Verdades que custam a todos assumir, verdades sobre as relações entre homens-mulheres, dos dias de hoje e um pouco desde sempre (mas mais encoberto). A emancipação da mulher, nem sempre vista com bons olhos por alguns homens e muitas vezes, menos ainda por outras mulheres; a liberdade de escolha; a não aceitação passiva das coisas apenas por medo ou por ficar bem na sociedade; o encarar de frente situações completamente desconhecidas, que podem atirar-nos para um mundo do qual nunca pensámos fazer parte; tudo isso e muito mais é motivo de crítica, por quem reorre à aceitação e passividade perante a vida. No entanto, o livro pretende mostrar exactamente o contrário. É um ponto de vista, diferente do que é comum falar-se, mas partilhado por muitas pessoas, onde a crítica não é o objectivo, nem a escrita é feita dessa forma. Entre aventuras e desventuras, a personagem principal vai conhecendo-se cada dia um pouco mais, apesar dos seus já 50 anos de algumas experiências, mas a verdade é que nunca deixamos de nos surpreender e de aprender algo sobre nós, por mais idade que tenhamos. As sincronicidades que ocorrem na sua vida, as pessoas que a cruzam, as amizades de longa data, umas conservadas outras rompidas, vão guiando a personagem numa busca de si mesma, tentando alcançar algo que todos procuramos, mas nem sempre sabemos identificar quando temos: a felicidade. Por vezes, consideramos ser felizes até que um dia algo abana as nossas crenças e, fazendo cair o pano que nos venda os olhos, mostra-nos uma realidade com a qual não sabemos muito bem como lidar, pelo seu carácter desconhecido. Algumas pessoas, ignoram, voltam a colocar outro pano e esquecem o momento de lucidez que presenciaram. Nunca mais me esqueço da peça, que vi em Salamanca, intitulada “Assim é se assim lhe parece”. Por outro lado, nesse momento de percepção, dolorosa ou libertadora, há quem agarre essa nova realidade e mude a sua vida, parecendo incoerente aos outros, por nunca assim ter agido, mas sentindo como que um renascer interior, que se espelha no esterior. É sempre bom estarmos atentos e não ter medo das mudanças de ideias, opiniões, sensações que vamos tendo ao longo da nossa vida. São elas que a tornam especial e boa de ser vivida. Aconselho o livro como forma de reflexão, como uma boa história com grande probabilidade de ser verdadeira e como uma aprendizagem do que, por vezes, queremos ignorar, mas está à nossa volta e também em nós. É um desassossegar, talvez necessário, das nossas ideias e vida. Um agradecimento grande à escritora Julieta Ferreira por ter cruzado a minha vida e por presentear a literatura portuguesa com os seus trabalhos, nomeadamente este. Espero que possam ter o privilégio de ler. Boas leituras a todos.
Quando foi a última vez?
Já há algum tempo vagueia por breves segundos na minha cabeça, memórias da minha estadia em Salamanca. Apesar de ter vindo embora, de não estar lá o caminho que queria seguir e de não me arrepender em nada da decisão que tomei, foi realmente um tempo muito bem vivido. Não imagino, mesmo nada, a minha vida sem ter passado por Salamanca. Talvez por isso, nesses breves flashes que o meu cérebro me presenteia, mesmo quando estou a trabalhar e sem qualquer pensamento no passado, sorrio e o meu rosto descontrai do estudo que tenho em mãos. Não me lembro de viver um ano tão rico em tudo e a verdade é que ter ficado mais tempo em Salamanca poderia tornar monótono o sentimento de espanto e curiosidade, um pouco criança, de tudo o que ali vivi.
Passou mais uma época natalícia e mais um ano terminou para dar início a outro. No que respeita 