Paixão não vivida
hoje fui ver um filme deveras encantador e que, para não variar, abriu a torneira das minhas emoções… Já há algum tempo que isso não acontecia e, confesso, que já lá tinha muita água guardada. O filme intitula-se: “Becoming Jane” retratando a infância de Jane Austen.A questão que não me sai da cabeça, passo a partilhá-la convosco, meus leitores deste cantinho virtual: quando um grande amor não pode ser vivido, será mais forte a dor de seguir um caminho sozinha ou a dor de saber que nunca se pode amar plenamente quem está a nosso lado? Há quem opine que ao nos contentarmos com algo menor é uma traição ao sentimento que nutrimos por outrem. Outros porém, consideram que o amor pode aprender-se e pode ser construído, completando de certa forma a nossa vida, ainda que algo maior tenha sempre um lugar e uma presença.
Sinceramente, não vos consigo, neste momento, passar a minha opinião. O infortúnio de não se poder viver uma grande paixão, permitam-me que faça esta diferença, é, por si só, uma dor inigualável. É sentirmos que, por mais que caminhemos na nossa vida, não temos o companheiro de viagem que tornaria a caminhada perfeita.
Explico, tentando ser breve, o porque de ter escrito: “uma grande paixão” e não “um grande amor”. Para mim, na inocência dos meus quase 26 anos, o amor é algo que se vai construindo e que vai crescendo com a convivência, com as experiências partilhadas, com as dificuldades ultrapassadas. A paixão, pelo contrário, é algo de instinto, um arrebatamento que nos faz perder a razão e cometer loucuras. É carnal, místico, uma química partilhada ou contida num só corpo. A paixão é turbulência, o amor é tranquilidade. Por paixão arriscamos tudo, por amor aprendemos a dar liberdade e a colocar a outra pessoa como prioridade. Pode amar-se eternamente, a paixão é efémera.
Bem, já me alonguei…
O filme, mais volta menos volta, retratava exactamente isso. Jane Austen, uma célebre escritora, autora de Orgulho e Preconceito, transmitiu para os seus romances e para as suas personagens um pouco da sua vida. Mas o final que deu a todas as personagens dos seus romances, foi o final que nunca conseguiu alcançar na sua vida. Através do papel e da escrita, Jane criava as realidades que por ela não podiam ser vividas. A grande paixão e amor da sua vida, nunca vividos. Nesse amor, as personagens intervenientes tomaram rumos distintos. Ela, corajosamente dada a época em que viveu, optou por uma vida de isolamento amoroso, refugiando-se e vivendo da sua escrita. Ele, porém, seguiu a sua vida, casou, teve filhos mas nunca esqueceu ou conseguiu apagar o sentimento que, desde sempre, nutriu por Jane. Qual dos dois era mais feliz?
Mas teria essa paixão sido transformada em amor se não houvesse a impossibilidade? Teriam eles resistido ao dia-a-dia, onde a paixão lentamente desaparece e toma um carácter mais calmo e menos arrebatador? A impossibilidade dessa paixão e não viver a mesma, acaba por ser a razão pela qual se torna tão intensa e presente, sem que desapareça ao longo dos anos. Uma vez, num outro filme também já aqui referido (Antes do amanhecer) o protagonista dizia mais ou menos assim, para tentar convencer a protagonista a sair do comboio e partilhar com ele uma única noite em Viena – Áustria: “considera esta noite como uma oportunidade para viveres bem no teu futuro. Imagina-te daqui a uns anos, junto do teu marido e a olhar para trás e pensar em mim, um estranho que conheceste, te despertou um certo interesse. Aí perguntas-te como teria sido se saísses com esse estranho do comboio, em que medida isso alteraria a tua vida. Saíres comigo agora é a oportunidade que tens de ver que sou uma pessoa igual às outras, com defeitos e virtudes, com conversa que se repetirá ao longo dos anos e que afinal sou tão enfadonho e deprimente quanto a pessoa que está ao teu lado, nesse futuro”.
É interessante e realmente concordo bastante com este ponto de vista. Às vezes, o facto de não vivermos as histórias de paixão ou de não arriscarmos mais em determinados momentos, faz com que esses momentos adquiram uma importância demasiado grande e intensa dentro de nós. Provavelmente, se as vivêssemos iríamos considera-las banais e corriqueiras. Mas como não o fazemos, tornam-se místicas e desconhecidas, colocando-nos sempre a questão: e se…?
Não só aplicável às paixões ou amores, mas também a projectos ou a situações que se cruzam no nosso caminho todos os dias, devemos, dentro dos possíveis, viver as coisas. Ficarão sempre caminhos por percorrer, haverá sempre “e ses”, e com certeza haverão desilusões e alegrias. Mas, na opinião desta leiga de quase 26 anos, penso que mais vale nos arrependermos de algo que fizemos do que nos remoermos toda a vida por algo que não sabemos como seria. Claro que tudo isto dentro do razoável e respeitando sempre a liberdade dos outros.
Para quem ainda não o fez, vejam o filme. É lamechas simJ, mas é também um pouco histórico e, acima de tudo, real.
Boas leituras…
Começando pelo livro. Uma das críticas feitas na contra-capa do livro é mais ou menos assim: “Não consegui parar de chorar e rir desde as primeiras páginas”. Comigo passou-se de igual forma. Não posso dizer que seja um livro com uma história deveras surpreendente ou inovadora. Nem mesmo posso dizer que não tenha as suas partes previsíveis. No entanto, é um livro muito real, repleto de sentimentos muito verdadeiros, com uma lição de vida explêndida. Torna-nos um pouco mais humanos lermos histórias assim. Pelo menos a mim pôs-me a pensar. Passamos pela nossa vida a dar importância a coisas supérfulas esquecendo as mais importantes como a amizade de quem está sempre do nosso lado. Planeamos demasiado a nossa vida sem nos darmos conta que de repente tudo muda e deixa de ser como pensávamos que ira ser.
Quanto aos filmes são de uma simplicidade genial. Em “Before Sunrise” duas pessoas conhecem-se e decidem viver intensamente uma única noite, passeando e apaixonando-se enquanto percorrem as ruas de Vienna de Austria. No fim combinam encontrar-se 6 meses depois desse dia/noite.
O segundo filme, “Before Sunset” aparece 9 anos depois, promovendo um reencontro passado 9 anos reais entre essas duas pessoas. A genialidade destes dois filmes está na forma tão real como se conseguiu traspor para a ficção uma história simples de um relacionamento entre duas pessoas que começa por um momento e que, por não ter um fim, por ter ficado sempre algo por resolver, muda a vida de duas pessoas. Para os rapazes/homens é muito bom, para compreenderem um pouco as raparigas/mulheres J. Para as raparigas/mulheresJ, muitas se podem rever um pouco nestes dois filmes. Para o público em geral é… refrescante e interessanteJ.